Tem nome estrangeiro mas é brasileira a mulher que levou o espírito da nossa fala para o universo do canto lírico nos tempos dos discos em 78 rotações. Filha de norte-americano com carioca, Elsie Houston nasceu no Rio de Janeiro em 1902. Soprano, estudou canto na Argentina, na Alemanha e na França. Em 1926, foi a Paris estudar com Ninon-Vallin, figura importante do modernismo francês que a inspirou e incentivou a trazer melodias populares do Brasil para o seu repertório. Elsie viveu a Paris das vanguardas, cantou Debussy, Ravel, Stravinsky, Villa-Lobos, candomblé e bumba-meu-boi. Em 1927, casou-se com o poeta surrealista francês Benjamin Péret, com quem viajou pelo Brasil em busca das tradições afro-brasileiras e indígenas. Cantava e tocava para os orixás. Viveu o trotskismo. Separada do marido, entre 1937 e 1943 morou nos Estados Unidos onde impressionava o público tocando percussão e cantando suas voodoo songs à luz de velas. Falava no rádio para o mundo sobre as tradições musicais do seu país. Tinha técnica de soprano mas buscava a pronúncia das ruas, rodas e terreiros. Um cantar único e brasileiro, dicção perfeita, e infinitos efeitos de quem sabe dançar com a voz.  A cantora preferida dos modernistas serpenteava do grave para o agudo, espichava a voz e sincopava. Potente, molenga, feroz. Viveu o feminismo. Em qualquer foto da artista, um olhar de desafio confirma a mulher “exigente de suas liberdades” como percebeu Mário de Andrade numa crônica para a Folha da Manhã.

Músicas

Estrela do céu é lua nova (1929) – Elsie Houston acompanhada por Lucília Villa-Lobos ao piano. Harmonização: Heitor Villa-Lobos
 Xangô (1940) – Elsie Houston. Harmonização: Heitor Villa-Lobos

Apresentação, roteiro e edição: Biancamaria Binazzi

Locuções: Bruno Morais

Entrevistadas: Flávia Toni, Isabel Bertevelli e Anais Flechét

Concepção e Pesquisa: Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista