Com o início da Copa das Confederações, a Rádio Batuta realiza o antigo desejo de ter uma mesa-redonda de futebol em sua programação. A primeira edição de Gol de Cabeça entra no ar na véspera da estreia do Brasil no torneio, contra o Japão. É uma conversa inteligente, sem intervalos comerciais ou qualquer interesse que não seja pensar com liberdade sobre futebol, sobretudo o brasileiro.

O programa conta com as participações do ensaísta Francisco Bosco, torcedor do Flamengo; do escritor e artista plástico Nuno Ramos (via Skype), torcedor do Santos; do jornalista Fernando Barros e Silva, diretor de redação da revista Piauí e são-paulino; e do historiador Marcos Alvito, torcedor do Flamengo e autor de A rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra (a ser publicado em 2014). A apresentação é de Luiz Fernando Vianna, coordenador de internet do IMS.

Na mesa-redonda, são classificadas de retrocesso as presenças de José Maria Marin na presidência da CBF e de Luiz Felipe Scolari no comando da seleção, e condena-se a presença de Ronaldo, que tem interesses comerciais no evento, como comentarista da TV Globo. A emissora estaria explicitamente mais interessada em fazer promoção do que jornalismo. “Galvão Bueno está para o futebol brasileiro hoje como Cid Moreira estava para a ditadura militar”, afirma Fernando Barros e Silva, citando o antigo apresentador do “Jornal Nacional”.

Enquanto Marcos Alvito diz que vai torcer contra o Brasil, esperando que um mau resultado na Copa das Confederações contribua para mudanças profundas no futebol nacional, Nuno Ramos conta que tem uma relação praticamente infantil com a seleção e sempre torce por ela, mesmo tendo “um ódio quase físico por Galvão Bueno”. “Detesto a culpabilização do jogador que a Globo faz. É o que está acontecendo agora com o Neymar. A nossa sem-vergonhice de classe aparece na figura do bode expiatório”, afirma Nuno.

Francisco Bosco exalta o trabalho do comentarista esportivo Paulo Vinicius Coelho, a quem Nuno fez reservas por não ver nele e em seu rigor analítico a capacidade de perceber o quão imprevisível é o futebol ("Ele daria um comentarista de basquete sensacional"). “Mas não há na crítica literária, por exemplo, alguém que dê conta de seu objeto como PVC consegue fazer com o jogo de futebol”, diz Bosco.

Alvito diz que a nossa crise ainda vai se aprofundar. "O futebol brasileiro está sendo golfado pela indústria do esporte", acredita ele, lembrando que foi ao Maracanã assistir a Brasil x Inglaterra e não conseguia ver a linha do campo, por causa das placas publicitárias, efeito nocivo da suposta modernização do esporte.

 

Edição e sonorização: Filipe Di Castro