Depois da Bossa Nova, as canções passaram a dispensar um tratamento suave às mulheres, que foram metaforizadas em flor, tratadas com beijinhos e carinhos sem ter fim. Mas nem sempre foi assim. Em Canção e violência, Paulo da Costa e Silva retoma a longa tradição de músicas que indicam algum traço de agressão contra a mulher para descortinar, a partir disso, um tipo específico de violência: uma violência que concilia estranhamente o afeto de plácidas melodias com a abjeção de letras francamente misóginas. Partindo da tensão entre forma e conteúdo em canções como Gol anulado (João Bosco/Aldir Blanc), Judiaria (Lupicínio Rodrigues) e Minha nega na janela (Germano Mathias), o ensaio traça um paralelo com as formas de sociabilidade que marcaram o período colonial e que poderiam ser o eco remoto desse tipo específico de afeto, a um só tempo terno e violento.   

Paulo da Costa e Silva é coordenador da Rádio Batuta e doutor em Letras pelas universidades PUC-Rio/Université Paris 7.

 

Apresentação: Paulo da Costa e Silva

Edição: Paulo da Costa e Silva / Filipe Di Castro

Sonorização: Filipe Di Castro