Apoiado na figura mitológica das Musas, na aproximação simbólica entre a sedução feminina e o poder encantatório das artes, Guilherme Wisnik faz um ensaio comparativo sobre a articulação dos temas musa/música/mulher nas poéticas de Gil, Chico e Caetano. Se em Gilberto Gil a “musa única mulher” é o farol e o porto seguro que faz do cantor “um navegador” (Ela), ou a torre que o possibilita “ir pro mundo inteiro” (Sandra), em Chico Buarque a música tende a ser vista não como esposa, mas como amante. Amante envolvida por atmosfera de sigilo e sedução, diante de um cantor constantemente posto em dúvida como “falso” (Choro bandido) ou “impostor” (De volta ao samba). Já no caso de Caetano Veloso, Wisnik argumenta que “uma relação menos controlada com a criação musical” faz com que a musa/música seja vista a um só tempo como “bússola” e “desorientação”. O cantor percorre os caminhos da melodia como quem se perde num labirinto (de maneira Errática, magnífica e pouco conhecida canção comentada pelo ensaísta no programa), mas no fim termina sempre por reencontrar, em algum canto perdido da memória, a voz acolhedora e familiar da mãe (Genipapo absoluto), ou da irmã mais velha (Nicinha), ou ainda da irmã mais nova (Maria Bethânia), cuja voz se confunde com a sua em Motriz.

Guilherme Wisnik é arquiteto e mestre em história pela Universidade de São Paulo. Publicou Estado crítico – À deriva nas cidades, entre outros livros.

 

Apresentação: Tais Zeitune, Julia Menezes, Elizama Almeida, Rachel Rezende, Alice Sant’Anna, Julia Kovensky, Katya de Moraes

Edição: Paulo da Costa e Silva / Filipe Di Castro

Sonorização: Filipe Di Castro