O jornalista Franklin Martins está lançando os dois primeiros volumes da trilogia Quem foi que inventou o Brasil?. Neles, em pesquisa exaustiva, levanta a história da República brasileira através da música popular. No primeiro livro, de 1902 a 1964, recolheu 473 canções. No segundo, até 1985, mais 310 fonogramas. A Rádio Batuta escolheu dez exemplos, de épocas diversas, para uma playlist. Mais abaixo estão os textos, tirados do livro, que explicam como cada canção conta, reflete ou ilustra sua presença no contexto nacional.

Músicas

A bandeira do meu partido (Jorge Mautner) – Jorge Mautner

Caixinha, obrigado (Juca Chaves) – Juca Chaves

Canção do subdesenvolvido (Carlos Lyra e Chico de Assis) – Carlos Lyra

Manifesto (Mariozinho Rocha e Guto Graça Mello) – Elis Regina

Menino (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) – Milton Nascimento

Aluga-se (Raul Seixas e Claudio Roberto) – Raul Seixas

A marcha do povo doido (Gonzaguinha) – Gonzaguinha

Linha de montagem (Novelli e Chico Buarque) – Chico Buarque

Arrombou o cofre (Rita Lee e Roberto de Carvalho) – Rita Lee

Fidelidade partidária (Nei Lopes e Wilson Moreira) – Wilson Moreira, Nei Lopes e Evandro Mesquita

 

Seleção: Joaquim Ferreira dos Santos, a partir dos dois volumes de Quem foi que inventou o Brasil?, de Franklin Martins

Edição e sonorização: Filipe Di Castro

 

1. A bandeira do meu partido, de Jorge Mautner, de 1958, cantada por Jorge Mautner. “Durante o governo JK, o Partido Comunista Brasileiro, que pediu voto para ele em 1955, gozou de relativa liberdade. Embora continuasse a ser considerado ilegal e não pudesse disputar eleições parou de sofrer perseguições e Luis Carlos Prestes deixou a clandestinidade em 1958. O partido se juntou aos movimentos nacionalistas e à união das forças democráticas. É nesse ambiente que Jorge Mautner, então com 17 anos, compõe A bandeira do meu partido. Ele só ingressaria no partido em 1962. A última estrofe, em que se entrelaçam os ideais socialistas e nacionalistas, foi composta bem mais tarde. A música só foi gravada em 1985, ao fim da ditadura militar.”

2. Caixinha, obrigado, de Juca Chaves, de 1960, com Juca Chaves. “Juca Chaves voltou a atacar com uma modinha que fez muito sucesso, investindo contra a corrupção. Não centrou fogo em Juscelino ou no governo, mas bateu nos políticos de modo geral. De qualquer forma, o menestrel maldito, como ele mesmo se intitulava, captou o clima da época. Somadas, a inflação e as denúncias de corrupção crivam um sentimento de cansaço, estimulando o desejo de mudanças. Seria nesse terreno fértil que o moralismo de Jânio Quadros, montado na vassoura contra a bandalheira, cresceria na campanha eleitoral que se aproximava.”

3. Canção do subdesenvolvido, de Carlos Lyra e Chico de Assis, com Carlos Lyra. “Em 1962, sob o impulso da luta pelas reformas de base, estudantes e intelectuais de esquerda fundaram o Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes. Em pouco tempo o CPC contava com núcleos em vários estados, convertendo-se num grande polo de agitação cultural com atuação em diversas frentes. (…) Canção do subdesenvolvido é composição bem-humorada e debochada com críticas à dependência cultural, política e econômica do país desde os tempos do descobrimento. Fez sucesso entre os jovens e foi censurada depois do golpe militar.”

4. Manifesto, de Mariozinho Rocha e Guta Graça Mello, de 1967, com Elis Regina. “Manifesto não queria celebrar causas, iniciar movimentos, acabar com injustiças sociais ou convocar o povo a lutar contra a ditadura. A canção estava preocupada apenas em lamentar a perda da mulher amada. Mas, como se vivia uma época de grande agitação até na hora de chorar uma dor de cotovelo, o jargão politico entra em cena (…) desfiando muitas expressões e palavras que depois do golpe de 1964 povoavam as discussões dos setores progressistas da sociedade: mensagem, guerra fria, ideologia, direita, esquerda, censura, vermelha, verde e amarela, camarada, companheiro, golpe de estado, agitação, mandato, cassado e deportado.”

5. Menino, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, de 1968, com Milton Nascimento. “A música pede a todos que protestem contra o assassinato de Edson Luis (Nota: estudante morto pela polícia no Centro do Rio). (…) Menino foi gravada pela primeira vez em 1976, oito anos depois da morte de Edson Luis. Fez parte da trilha sonora do documentário Jango, de Silvio Tendler, de 1984.”

6. Aluga-se, Raul Seixas, de 1980, com Raul Seixas. “A partir de 1979, a dívida externa brasileira cresceu como bola de neve. (…) Atarantado , o governo não sabia como responder ao problema. Raul Seixas, que no meio da sua ‘maluquez’ tinha momentos de enorme lucidez, foi direto ao ponto no refrão de Aluga-se: ‘Nós não vamos pagar nada’. (…) Qual a saída? De brincadeira, Raul propôs que alugássemos o Brasil para os norte-americanos.”

7. A marcha do povo doido, de Gonzaguinha, de 1980, com Gonzaguinha. “Mais de uma década depois de Stanislaw Ponte Preta ter composto o Samba do crioulo doido (…) em 1980 quem estava enlouquecendo era o próprio povo, apontado como responsável pelos problemas do país, como a carestia, a crise da energia, a alta do petróleo e a truculência da polícia. A coisa estava tão feia que o herói da marcha se dispunha a confessar qualquer coisa, inclusive o assassinato de Dana de Teffé, famoso crime sem cadáver ocorrido em 1961. Assim poderia passar um tempo na prisão comendo de graça.”

8. Linha de montagem, de Novelli e Chico Buarque, de 1980. “Foi composta pouco antes da deflagração da greve de São Bernardo de 1980. Chico pretendia cantá-la pela primeira vez num show no estádio de Vila Euclides, no dia 20 de abril, com renda destinada ao Fundo de Greve. Mais de 100 mil ingressos haviam sido vendidos. No entanto, o espetáculo foi proibido pela polícia. A canção fez parte de um compacto duplo chamado 1º de maio, cuja venda reverteu para o Fundo de Greve. Em Linha de montagem, Chico se solidarizou com os trabalhadores e assinalou a importância do novo movimento operário do ABCD paulista para o processo de redemocratização do país.”

9. Arrombou o cofre, de Rita Lee e Roberto Carvalho, de 1983. “Faz uma bem-humorada crônica musical sobre a situação política, econômica e social do Brasil da época. Começa lembrando com ironia o slogan ‘pra frente, Brasil’, do início da década de 1970.( …) Recorda o escândalo Lutfalla, em que recursos do BNDES foram parar numa empresa de tecelagem da família de Paulo Maluf para evitar sua falência.( …) Arrombou o cofre toma emprestada a música de um dos maiores sucesso de Rita Lee, Arrombou a festa, de 1976. (…) Mexendo com tanta gente graúda, Arrombou o cofre foi censurada. Como o disco já havia sido prensado, a faixa foi inutilizada com riscos.”

10. Fidelidade partidária, de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1985, com Wilson, Nei e Evandro Mesquita. “Quando sentiu que sua candidatura estava fazendo água e tudo apontava para a vitória de Tancredo Neves, o candidato do PDS, Paulo Maluf, apelou para o tapetão. Ingressou com uma ação no TSE pedindo que fosse aplicado no Colégio Eleitoral o princípio da fidelidade eleitoral. ( …) O caso inspirou a dupla Wilson Moreira e Nei Lopes a compor o partido alto. A gravação teve a participação especial do roqueiro Evandro Mesquita, da Blitz. Registro posterior, do ano 2000, com Joyce e Nei, apresenta letra ligeiramente diferente. O verso ‘olhar mulher feia e ficar com urticária’ seria substituído por ‘Nem demagogia com a classe operária'”