Hermínio Bello de Carvalho, que completa 80 anos neste 28 de março, tem uma forte relação profissional com cantoras. Deu algumas de suas principais composições para que elas as lançassem, além de ter descoberto algumas dessas artistas (Clementina de Jesus foi a principal) e valorizado outras (como Zezé Gonzaga), esquecidas pela passagem do tempo. Joaquim Ferreira dos Santos fez uma playlist com estas cantoras-musas de Hermínio. Em algumas gravações escolhidas, a música é do compositor; em outras, ele é o produtor do disco. Mais abaixo, textos explicam as origens das gravações.

Músicas

Mudando de conversa (Maurício Tapajós/Herminio Bello de Carvalho) – Dóris Monteiro

Pressentimento (Elton Medeiros/Herminio Bello de Carvalho) – Elza Soares

Nunca mais (Sueli Costa/Hermínio Bello de Carvalho) – Alaíde Costa

Era o fim (Fernando Temporão/Herminío Bello de Carvalho) – Áurea Martins

Sou apenas uma senhora que ainda canta (Radamés Gnattali/Hermínio Bello de Carvalho) – Zezé Gonzaga

Flor do lodo (Ary Quintella) – Aracy Cortes

Bom dia (Herivelto Martins/Aldo Cabral) – Dalva de Oliveira

Vai, saudade (David da Portela/Candeia) – Clementina de Jesus

Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho) – Odete Amaral

Barracão (Luiz Antônio/Oldemar Magalhães) – Elizeth Cardoso, Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o Época de Ouro

 

Mudando de conversa, de Hermínio com Maurício Tapajós, é um sambalanço pós-bossa nova, típico de meados dos anos 1960. A gravação, de 1965, trouxe de volta às paradas de sucesso a cantora Dóris Monteiro, de voz macia, que pertencera ao elenco da Rádio Nacional.

Pressentimento, em parceria com Elton Medeiros, participou da Bienal do Samba de 1969. Era um festival organizado pela TV Record para dar abrigo apenas a sambistas, pois os outros estavam tomados por experimentações musicais de vanguarda. A música ficou em terceiro lugar, defendida por Marília Medalha. A gravação com Elza Soares é de 1971.

Alaíde Costa apareceu também em programas da Rádio Nacional e teve destaque, com sua voz sussurrada, como uma das cantoras da bossa nova, tendo frequentado o Beco das Garrafas. Nunca mais é de um disco de 1982, apenas com músicas de Hermínio.

Áurea Martins, descoberta em 1972 no programa “A grande chance”, de Flávio Cavalcanti, ficou muitos anos relegada ao circuito boêmio, apresentando-se em casas noturnas do Rio. Em 2010, Hermínio produziu para ela o CD Depontacabeça. Também de voz miúda, elegante, Áurea seria escolhida por Hermínio para se juntar a Alaíde Costa, de voz próxima, num show dirigido por ele em homenagem a Elizeth Cardoso.

Zezé Gonzaga foi uma das grandes estrelas da Rádio Nacional nos anos 1950 e estava aposentada em 1979, dirigindo uma creche em Curitiba, quando Hermínio a chamou para gravar um disco com músicas de Valzinho. Foi eleito o melhor disco do ano. Posteriormete, fariam mais dois discos juntos. A música Sou apenas uma senhora que ainda canta foi feita por Hermínio, sobre melodia de Radamés Gnattali, especialmente para contar a história de Zezé.

Aracy Cortes era cantora e vedete de teatro de revista. Surgida nos anos 1920, costuma ser considerada a primeira grande cantora popular brasileira. Em 1965 estava aposentada quando Hermínio a chamou para participar do show “Rosa de Ouro”. A gravação de Flor do lodo, de Ary Quintella, é desse espetáculo.

Dalva de Oliveira morreu em 1972. Anos depois, Hermínio produziu um disco em que, conservando a voz original de Dalva, refez para as novas plateias os arranjos de seus maiores sucessos. Bom dia, de Herivelto Martins e Aldo Cabral, é desse disco.

Costuma-se dizer que, se não tivesse feito qualquer música, produzido qualquer disco ou dirigido shows, a existência de Hermínio já faria sentido apenas por esse fato: foi ele quem descobriu Clementina de Jesus, em 1964, no bairro da Glória, no Rio. Vai, saudade, de David da Portela e Candeia, é de um disco de 1970.

Odete Amaral, outra cantora da Rádio Nacional, também estava sem gravar em 1968 quando Hermínio a chamou para participar de Fala, Mangueira, com Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho e Clementina. Sei lá, Mangueira, em parceria com o portelense Paulinho da Viola, tem letra do mangueirense Hermínio.

Elizeth Cardoso já tinha sido produzida por Hermínio no LP Elizeth sobe o morro, de 1965. Barracão é uma música do LP gravado ao vivo no show de fevereiro de 1968, dirigido por Hermínio. Ele reuniu Elizeth, Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e o Época de Ouro, num dos grandes momentos da história da música brasileira.

 

Seleção e textos: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro