No dia 10 de novembro de 1958, João Gilberto chegou ao estúdio da Odeon para mais um round nas gravações de seu segundo compacto. Em agosto ele tinha lançado o compacto com Chega de saudade de um lado e Bim bom do outro. Assim se passaram apenas cinco meses, mas já estava na cara. A música brasileira nunca mais seria a mesma. A expectativa para o novo compacto era grande, mas a gravação, como qualquer coisa relacionada com João, estava complicada. Ele implicava com os arranjos de Tom, com o baterista, com o excesso de cordas….

O clima era péssimo. Desafinado, a música escolhida para o segundo compacto, tratava-se de uma brincadeira de Tom Jobim e Newton Mendonça em torno da voz de João. Uma piada sofisticada, claro, algo que depois os comunicólogos chamariam de metalinguagem. Como a emissão do cantor era muito diferente, estabelecera-se no país uma discussão de se ele era afinado ou não. Desafinado era a música sobre a música e os seus músicos, a dificuldade de ser entendido e anunciar o novo. Livros já foram escritos sobre ela, mas não se assuste. Hoje, aqui, não tem aborrecimento teórico. Isto é apenas um programa comemorativo daquele momento histórico e divertido da música brasileira.

Tom e Newton fizeram a composição para que, a principio, ela parecesse sair em defesa daquele “comportamento antimusical”. Quem a ouvisse pela segunda vez, no entanto, perceberia. Ela possuía uma complexidade que só os muito afinados poderiam enfrentar.

O primeiro cantor em que pensaram foi Ivon Cury, conhecido nos programas de auditório da Rádio Nacional como “O chansonier”, por sua mania de procurar o repertório francês e imitar seus cantores. Ivon era popularíssimo, dono de um estilo curioso que deixava o ouvinte na dúvida se deveria chorar ou cair imediatamente na mais desbragada gargalhada. Era um cantor engraçado, mas não bobo. Pressentiu alguma sacanagem na parada. Caiu fora. Aquele Desafinado era muito estranho. Onde já se viu colocar nome de máquina fotográfica, a Rolleyflex, numa letra de música? Não, muito obrigado, e continuou cantando “Maria, o teu nome principia na palma da minha mão…”.

João Gilberto percebeu logo que a música tinha sido feita para ele, compreendeu que os compositores estavam de olho na parada de sucessos inevitável a todo disco de Ivon e por isso convidaram o chansonier da Nacional. Mas a música fechava bem com a sua cara. E lá estava ele no estúdio Odeon naquele 10 de novembro para mais um round de egos com Tom, o arranjador e produtor da coisa.

Tom atendia as exigências de João e simplificou tudo ao máximo, suavizando a bateria de Milton Banana e desenhando um mínimo de cordas. Em meio à discussão sobre um acorde, conforme diz Ruy Castro no seu livro Chega de saudade, João foi sincero: “Mas você é burro, hein, Tom?”. Ninguém morreu, era apenas o complicado João revelando a sua enorme ingratidão. Do ponto de vista histórico, tratava-se de uma questão menor. Treze takes depois, todos salvos e apenas os corações feridos, o mundo tinha uma nova obra-prima.

Passados 55 anos, Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, contabiliza centenas de gravações além daquela de João Gilberto. De Sinatra a Kenny G, todos ainda se encantam com sua elegância e sofisticação. A Rádio Batuta, na certeza de que isso continua sendo bossa nova, que é muito natural e dos grandes momentos da cultura brasileira, escolheu dez regravações, além de uma só de João, para você ouvir. Clique ao lado e ouça se não é. No peito do desafinado ainda bate um coração. Moderníssimo.
Texto e seleção: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição: Filipe Di Castro