Leila Diniz, que faria 70 anos em 25 de março, é citada nas letras de seis músicas desta playlist, organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, e ajuda a cantar a sétima.

Martinho da Vila e ela eram amigos do Antonio’s, o bar da intelectualidade carioca, no Leblon, por isso a expressão “porristas” na letra. Martinho começava a carreira, era pouco conhecido, e pelo menos uma vez seu tête-à-tête com atriz, numa mesa de canto, foi recebido com preconceito no bar. Um homem passou pelo casal, falou “pouca vergonha” e, antes de bater a porta, disse que nunca mais voltaria ali.

Em Coqueiro verde, de Erasmo e Roberto Carlos, o Tremendão narra o encontro que marcou com uma namorada. Depois de esperar algum tempo, vai embora ler seu “Pasquim”, porque “Como diz Leila Diniz/ homem tem que ser durão”. A letra é uma liberdade poética. Leila nunca disse que homem tem que ser durão. Pelo contrário. Exaltava o homem sensível. Machão não era com ela. Reconhecia no macho uma vítima da opressão social tão sofrida quanto as mulheres. Se essas tinham que ser românticas, pudicas e virgens, dos homens exigia-se a força do guerreiro matador, capaz de façanhas sexuais. Os dois, homem e mulher, viviam para cumprir esses estereótipos – e eram infelizes, cada qual tentando cumprir seus papéis sociais. Nenhum conseguia.

A música de Milton Nascimento foi feita a partir de uma frase de Leila, “um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, que está no filme Todas as mulheres do mundo. Eram amicíssimos. Milton chegou a morar com Leila por uns tempos, num apartamento na Joatinga, na Barra da Tijuca.

Rita Lee e Leila Diniz conheceram-se rapidamente nos bastidores da Rede Globo. Leila gravando a novela Sheik de Agadir e Rita ensaiando para apresentar Ando meio desligado, no Maracanãzinho, no Festival Internacional da Canção. Rita adorou o vestido de noiva que Leila usava na cena e o pediu emprestado para apresentar a música. Quando Leila morreu, em 1972, num desastre de avião na Índia, Rita pensou em compor uma música rimando Diniz com feliz. Mas Todas as mulheres do mundo só ficaria pronta 20 anos depois.

Elton Medeiros conheceu Leila através de Nelson Sargento, que certa vez pintou um apartamento da atriz, e Taiguara era membro do Partido Comunista Brasileiro, como o pai de Leila. Tiveram breves contatos com ela.

Amor, carnaval e sonhos foi o último filme de Leila. Aparecem cenas da atriz desfilando pelo Império Serrano no carnaval de 1972, quando representou Carmen Miranda no enredo sobre a cantora. Na abertura do filme, ela aparece quebrando a imagem de uma santa, uma cena que hoje lhe custaria muitas explicações ao politicamente correto. Reclamava com a santa que lhe pagava as promessas, botava-lhe flores todos os dias, e em troca a santa não lhe arrumava namorado. Mal quebra a imagem na quina de um móvel, entra pela janela o malandro de Hugo Carvana, e os dois começam a cantar O importante é ser fevereiro, de Wando. É a interpretação da dupla no filme que está nesta playlist.

Músicas

Leila Diniz (Martinho da Vila) – Martinho da Vila

Coqueiro verde (Roberto e Erasmo Carlos) – Erasmo Carlos

Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco (Milton Nascimento e Leila Diniz) – Milton Nascimento e Leila Diniz

Todas as mulheres do mundo (Rita Lee e Roberto Carvalho) – Rita Lee

Memória livre de Leila Diniz (Taiguara) – Claudia e Taiguara

Mais feliz (Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro e Paulo Cesar Pinheiro) – Elton Medeiros

O importante é ser fevereiro (Wando e Nilo Amaro) – Hugo Carvana e Leila Diniz (Do filme Amor, carnaval e sonhos, de Paulo Cezar Saraceni)

 

Seleção: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro