Ooooooh! Um escândalo de cantora – por Joaquim Ferreira dos Santos

A atriz Norma Bengell, que morreu aos 78 anos neste 9 de outubro no Rio, vítima de um câncer de pulmão, gravou vários discos como cantora e fez pelo menos duas rápidas e interessantíssimas incursões na bossa nova. Ela gravou em 1959, pela Odeon, o histórico Ooooooh! Norma. O segundo era um encontro com Dick Farney, em 1965, um dos primeiros lançamentos da mitológica gravadora Elenco, selo de qualidade do movimento.

A carreira de cantora de Norma Bengell não aconteceu por acaso. Ela havia aparecido no cenário artístico como girl dos shows de Carlos Machado. Participara da chanchada O homem do Sputnik, fazendo uma espiã francesa, paródia escrachada das boquinhas de Brigitte Bardot, e com direito a um número musical. Norma também gravara um 78 rotações com as versões A lua de mel na lua e E se tens coração.

Mas sua entrada para a história da música popular tem um fato curioso.

Quando a Odeon lançou um LP de música instrumental e, por descuido, colocou uma foto da atriz, de biquíni, na capa, ela foi à gravadora. Não queria indenização em dinheiro. Queria gravar um LP inteiro.

A voz era pequena, mas a de Julie London, cantora que entusiasmava os ouvidos sofisticados da época, também não era lá muito mais possante. O importante no momento era ter bossa, charme. O disco, com uma foto sensual mas classuda, em que Norma parece estar nua, ficou muito bom e consta de qualquer relação de discos lançadores da bossa nova (ele saiu no mesmo 1959 do primeiro LP de João Gilberto). Alguns arranjos ainda têm violinos em excesso, uma pompa longe do ideal de leveza da bossa nova, mas a voz baixinha e o repertório têm o bom gosto do movimento. Das cantoras em cena, só Silvinha Telles tinha uma voz tão despojada de arabescos.

Estão lá, as internacionais Fever, That old black magic, On the sunny side of the street, C’est si bon, You better go now e Drume negrita. Há mais três canções de Tom Jobim (Eu sei que vou te amar, Eu preciso de você e Sucedeu assim), uma de Ronaldo Bôscoli (Sente) e, para não dizer que não se falou de João, o grande assunto musical do ano, Norma gravou o seu Hô-ba-la-la.

Ela passou os primeiros anos da bossa nova em cena com os seus intérpretes clássicos – e, claro, como seu corpo escultural era um escândalo ambulante, esteve num dos grandes tititis de 1959. Por sua causa foi cancelado um show de jovens cantores na PUC. Estava tudo certo com a reitoria da universidade, com as participações de Nara Leão, Silvinha Telles e todos os demais ídolos da bossa nova, quando Norma foi escalada. O padre-reitor disse que com Norma não tinha show. Os artistas firmaram posição. Só se apresentavam se ela estivesse junto – e foi preciso transferir o espetáculo para a Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha, campus da mais liberal UFRJ.

Norma, perseguida pela igreja, ganhou as manchetes dos jornais, e o show, no embalo da divulgação do escândalo, reuniu a primeira multidão para ouvir a nova música de índole discreta que surgia.

La Bengell ainda gravaria faixas de trilhas para cinema, como Tristeza, de Luis Bonfá, do filme Copacabana Palace, e também Água de beber e Garota de Ipanema, ambas de Tom e Vinicius, para Cat burger, produções de que ela participou também como atriz.

O segundo disco de La Bengell, foi em parceria com Dick Farney, no LP Meia noite em Copacabana, da Elenco. Ela está nas faixas Vou por aí (Baden e Aloysio de Oliveira) e Você (Menescal e Bôscoli). A carreira de atriz e cineasta acabou ficando mais forte, e Norma só voltaria ao disco em 1977, com um LP de título provocante: Norma canta mulheres. Os tempos são outros, era apenas uma brincadeira com o passado de escândalos. Com a sua voz deliciosamente curta e sensual, Norma Bengell despedia-se dos discos interpretando compositoras e sucessos de outras colegas cantoras.
Músicas

Hô-ba-la-la (João Gilberto).

Fever (J. Devemport e E.Cooley)

Eu sei que vou te amar (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

Sucedeu assim (Tom Jobim)

Drume negrita (E. Grenet)
Texto: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição: Filipe Di Castro