Samba esquema novo, que Jorge Ben (antes de ser Ben Jor) lançou em 1963, tinha 31 minutos de duração e 12 músicas – quase todas regravadas por outros artistas nos anos seguintes. Talvez só Chega de saudade, o LP de João Gilberto, de 1959, tenha tido tantas releituras. Deve ser isso que chamam de um disco cult.

Quando surgiu, no auge da bossa nova, um ano apenas depois da placidez da Garota de Ipanema indo em direção ao mar, “Esquema novo” foi um escândalo. Tinha ritmo demais. Ele só poderia ter sido produzido depois das ideias de João, mas estava em outra. O violão de Jorge Ben não namorava com os arabescos virtuosísticos do baiano. Era agressivo, de ouvido atento para a aceleração e o balanço. A base também era uma só, o samba, mas, se a bossa flertava com o jazz, o namoro de Ben era com o rock e os batuques africanos.

Ao contrário da bossa nova, feita para ser curtida, todo mundo sentadinho, copo de uísque na mão, a música de Jorge Ben convidava à dança. Foi um dos pilares do sambalanço, um braço menos prestigiado do movimento. Se as letras da bossa eram feitas por poetas como Vinicius de Moraes e jornalistas como Ronaldo Bôscoli, as de Ben visavam o coloquialismo e não posavam qualquer ranço de cultura letrada. Ben não falava “você”, mas “voxê”. Dizia que era homenagem a uma amiguinha de 3 anos. Parecia um preto velho.

A produção do disco é de Armando Pittigliani, da turma da bossa nova, e os arranjos principais são de J.T. Meirelles e seu Copa 5, conjunto de samba-jazz. O disco de Ben ficou samba-rock, e não à toa. Ele nasceu em Madureira e cresceu em torno da Tijuca, zona norte do Rio, enquanto Tom Jobim, Edu Lobo, Carlinhos Lyra e outros eram da zona sul. Mais: era vizinho de bairro de artistas como Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Tim Maia. Encontrava-se com eles com frequência para falar de música e ver as meninas que passavam na esquina das ruas Haddock Lobo e do Matoso.

Samba esquema novo ficou em 15º lugar numa lista dos melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone, na edição nacional. Ele acabou de ter todas as suas faixas regravadas pela cantora Clara Moreno, num CD lançado pela Biscoito Fino. É a mais recente movimentação em torno de um disco cada vez mais valorizado pelos artistas, críticos e fãs. Marisa Monte, 20 anos atrás, gravou Balança pema, assim como Sergio Mendes juntou-se ao Black Eyed Peas em Mas que nada, que ele próprio, nos anos 1960, havia transformado num sucesso internacional com o seu grupo Brasil 66. A banda Mundo Livre S.A, do manguebeat pernambucano, não gravou nada de Ben, mas titulou um de seus discos de Samba esquema noise.

Nesta playlist, as 12 faixas originais do “Esquema novo” são seguidas por algumas de suas regravações, feitas tanto por artistas de prestígio internacional como pelos novíssimos Amantes invisíveis.

Músicas

Mas que nada (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Mas que nada (Jorge Ben Jor) – Black Eyed Peas  e Sergio Mendes

Tim, dom, dom (João Mello e Clodoaldo Britto) – Jorge Ben Jor

Tim, dom, dom (João Mello e Clodoaldo Britto) – Sergio Mendes e Brasil 66

Balança pema (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Balança pema (Jorge Ben Jor) – Marisa Monte

Vem, morena, vem (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Vem morena, vem (Jorge Ben Jor) – Clara Moreno e Simoninha

Chove chuva (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Chove chuva (Jorge Ben Jor) – Biquini Cavadão

É só sambar (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

É só sambar (Jorge Ben Jor) – Amantes invisíveis

Rosa, menina Rosa (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Rosa, menina Rosa (Jorge Ben Jor) – Céu

Quero esquecer você (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Quero esquecer você (Jorge Ben Jor) – Los Sebosos Postiços

Uala ualalá (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Uala ualalá (Jorge Ben Jor) – Clara Moreno e Jair Oliveira

A tamba (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

A tamba (Jorge Ben Jor) – Clara Moreno

Menina, bonita, não chora (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Menina, bonita, não chora (Jorge Ben Jor) – Clara Moreno

Por causa de você (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor

Por causa de você (Jorge Ben Jor) – Jorge Ben Jor e Ivete Sangalo

 

Seleção e texto: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro

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