A Rádio Batuta preparou em 2013 um programa especial relembrando a história do carnaval carioca por meio dos sambas defendidos pelas escolas em seus desfiles. O pesquisador e escritor Alberto Mussa – autor do livro “Sambas de enredo: história e arte” ao lado de Luiz Antonio Simas – foi o responsável pela seleção dos sambas mais marcantes, escolhidos por diversos critérios, como beleza, importância temática e popularidade. Os comentários abaixo são de Mussa.
Seca do Nordeste (Tupi de Brás de Pina, 1961)
Autores: Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira
Intérprete: Abílio Martins
Quando as escolas de samba começaram a abandonar os enredos de exaltação a vultos históricos, o Brasil começou a desfilar, propriamente, na avenida. Este samba, de uma escola do segundo grupo, é um clássico: foi descoberto e gravado originalmente pelo inesquecível Jamelão. É o primeiro samba de enredo a tratar de um problema brasileiro.
Chico Rei (Salgueiro, 1964)
Autores: Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha
Intérprete: Noel Rosa de Oliveira
O Salgueiro foi a escola responsável pela introdução e pela consolidação dos enredos de tema afro-brasileiro no carnaval. Estimuladas pelo sucesso da agremiação tijucana, outras escolas de samba passaram a levar para a avenida a mitologia do candomblé e uma nova visão da história do negro e da escravidão no Brasil. Este samba é um exemplo deste período.
Os cinco bailes da história do Rio (Império Serrano, 1965)
Autores: Dona Ivone Lara, Silas de Oliveira e Bacalhau
Intérprete: Dona Ivone Lara
No quarto centenário de fundação do Rio de Janeiro, todas as escolas desfilaram com enredos sobre a história da cidade. Este samba foi, sem dúvida, o mais belo do ano, e envolveu um parceria inédita entre Dona Ivone Lara e Silas de Oliveira, o maior compositor de sambas de enredo de todos os tempos.
O mundo encantado de Monteiro Lobato (Mangueira, 1967)
Autores: Hélio Turco, Darci, Jurandir, Batista e Luiz
Intérprete: Jamelão
Foi com este samba que a mais querida conquistou o carnaval de 1967, num desfile emocionante. O público participou ativamente, cantando com a escola, o tempo todo. Isso porque o samba já era sucesso nas rádios antes do carnaval. E o sucesso foi tão grande que, no ano seguinte, foi lançado o primeiro LP com todos os ambas que participariam do desfile, inaugurando uma nova era para as escolas de samba.
Onde o Brasil aprendeu a liberdade (Vila Isabel, 1972)
Autores: Djalma Victorio e Soares e Souza
Intérprete: Martinho da Vila
Num período em que os artistas brasileiros sofriam muito com a censura instituída pelo regime militar, Martinho da Vila faz um samba desses. É, sem dúvida, um dos maiores sambas de enredo de todos os tempos.
Festa do Círio de Nazaré (São Carlos, 1975)
Autores: Aderbal Moreira, Dario Marciano e Nilo Esmera Mendes
Intérprete: Conjunto Nosso Samba
Com transmissões ao vivo pela TV, o desfile das escolas passou a ter um papel fundamental na difusão da cultura popular brasileira. Este samba da antiga Unidos de São Carlos (atual Estácio de Sá), escola do bairro que foi o berço do samba, é um exemplo de sucesso dessa linha de enredos e da importância deles, trazendo para o Rio e, consequentemente para o Brasil, tradições do povo do longínquo Pará.
Os sertões (Em Cima da Hora, 1976)
Autores: Edeor de Paula
Intérprete: Nando
Outro samba que está sempre na lista dos maiores de todos os tempos, tem o mérito de provar que desfile de escola de samba não se enquadrava na proposta alienada de um carnaval do oba-oba. Naquela época, os desfiles eram feitos para emocionar. Este samba é um exemplo.
Invenção de Orfeu (Vila Isabel, 1976)
Autores: Rodolpho, Paulo Brazão e Irany
Intérprete: Barbinha
Uma das linhagens de enredo mais fechadas, de todos os tempos, foi a da recriação de obras literárias. Mas ninguém ousaria apostar que justamente o poema hermético de Jorge de Lima poderia ser sintetizado por um compositor de escola de samba. Paulo Brazão fez, com perfeição inexcedível, essa proeza.
Domingo (União da Ilha, 1977)
Autores: Waldyr da Vala, Aurinho da Ilha, Ione do Nascimento e Adhemar de A. Vinhaes
Intérprete: Aroldo Melodia
Um dos desfiles mais lembrados da agremiação insulana, chama a atenção pelo fato de este samba – composto todo em tom menor – ter embalado um dos espetáculos mais descontraídos, despojados e informais do carnaval carioca.
A criação do mundo na tradição nagô (Beija-Flor, 1978)
Autores: Neguinho da Beija-Flor, Mazinho e Gilson
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor
Quando furou o seleto grupo das quatro grandes, em 1976, a escola de Nilópolis não se contentou com um título: ganhou logo um tricampeonato. Este samba é o do tri, uma das obras-primas da temática afro-brasileira.
É hoje (União da Ilha, 1982)
Autores: Didi e Mestrinho
Intérprete: Aroldo Melodia
Segundo dados do ECAD, este é o samba mais executado durante o período carnavalesco. Com ele, Didi, um dos maiores compositores de samba de enredo, consolidou o estilo União da Ilha de fazer samba. Tanto que a escola não detém apenas o primeiro lugar: dos cinco sambas mais ouvidos, quatro vêm da Ilha.
Xingu, o pássaro guerreiro (Tradição, 1985)
Autores: João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Intérprete: João Nogueira
Outra linhagem temática que o samba de enredo desenvolveu – fundamental para a cultura brasileira – é a da mitologia indígena e da história do índio. Esta obra-prima do samba de enredo, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, é um dos maiores exemplos.
Kizomba, a festa da raça (Vila Isabel, 1988)
Autores: Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila
Intérprete: Gera
No centenário da Abolição da Escravatura, não poderia faltar um samba e um desfile dignos do tema. Este, que embalou um desfile inesquecível, emocionante, merece, sem dúvida, um lugar entre os maiores.
Liberdade, liberdade (Imperatriz Leopoldinense, 1989)
Autores: Niltinho Tristeza, Vicentinho, Jurandir e Preto Jóia
Intérprete: Dominguinhos do Estácio
Outro samba marcante, num desfile também marcante, que comemorava, ao mesmo tempo, o centenário da República e o fim da ditadura militar.
Madureira, onde meu coração se deixou levar (Portela, 2013)
Autores: André do Posto Sete, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Wanderley Monteiro
Intérprete: Gilsinho
Depois da crise de criatividade que tem afetado o samba de enredo desde os anos 1990, este samba da Portela, belíssimo, veio para apontar o caminho a ser seguido. É a nossa maior esperança.
Produção: Carla Paes Leme
Edição: Filipe Di Castro