Flanela é uma série da Rádio Batuta dedicada a temas que povoam a imaginação literária, os consultórios de psicanálise, salões de cabeleireiro, táxis e mesas de bar. Cada episódio reúne entrevistas, ensaios, crônicas, contos ou qualquer tipo de texto relacionado ao assunto da vez, interpretados por convidados especiais.

O segundo episódio trata de violações e desvios de correspondência, nas esferas pública e doméstica, prática que nunca saiu de moda desde que se inventou a comunicação por escrito.
Neste episódio, Maria Bethânia interpreta Fernando Pessoa; Florestan Fernandes Júnior é surpreendido com a reaparição de uma dedicatória escrita ao amigo Tom Figueiredo (*) na década de 1970 e Carlos Lacerda ataca João Goulart na Tribuna da Imprensa.

No segundo ato, um caso de diário íntimo violado – o crítico literário João Adolfo Hansen interpreta Hermengarda com H, de Paulo Emílio Salles Gomes, ao som de valsas paulistas.

No terceiro ato (*), mensagens comprometedoras em um celular caído na esquina. Um texto de Ana Paula Anderson (https://jupitersaturno.jottit.com/).

Com músicas de: Maria Bethânia, Chico Buarque, Francisco Petrônio, Patápio Silva, Luiz Americano, Francisco Alves, Zequinha de Abreu e trilha de Lucas Marcier.

Direção e Roteiro: Natasha Felizi
Edição, sonoplastia e apresentação: Natasha Felizi e Filipe Di Castro
Colaborações: João Paulo Reys e Paula Scarpin
Supervisão: Paulo da Costa e Silva

(*) O episódio protagonizado por Florestan Fernandes Júnior foi produzido por Juliana R. (http://julianar.com.br/) e Joaquim Pedro dos Santos, que gostariam de manifestar seus sentimentos a Florestan pelo recente falecimento do amigo Tom Figueiredo.

(*) O áudio do terceiro ato, “No dia que achei o Nokia”, não pôde ser finalizado por questões técnicas. O texto original pode ser lido abaixo:

 

No dia que achei o Nokia,

das 08h02 às 08h46 conversei com 4 atendentes de telemarketing do convênio médico – Juliana, Fabíola, Dagmar e Kátia Fátima – tentando uma autorização de ressonância magnética encefálica para diagnosticar suspeita de acidente vascular cerebral hemorrágico em estágio inicial em minha vó, Celestina, 82, 14 kg mais magra em 2 meses de hospital e formigamentos constantes pelo braço esquerdo. Às 08h47, após 12 minutos de espera telefônica, a ligação caiu. Das 08h48 às 09h53, conversei com as atendentes Eliane, Cinthya e Micaela, e fui orientada a anotar o protocolo para facilitar o processo caso a ligação caísse novamente. Às 09h54, a ligação caiu novamente. Das 09h58 até às 10h12, devido à eficácia do protocolo, conversei apenas com Viviane, que solicitou envio por fax da guia assinada e carimbada pelo médico, com CRM legível, de preferência antes do meio-dia. Às 10h32, portando envelope pardo, esperei no balcão da lan house Cyber Touch entoando o hino “odeio os convênios odeio os convênios odeio os convênios”, enquanto o atendente Wilton passava o anti-vírus no pendrive do cliente Fábio, que estava ali, à minha frente na fila, solicitando impressão de seu Curriculum Vitae escrito em Comic Sans. Enquanto isso, uma loira de legging operava simultaneamente 2 máquinas de xerox num movimento hipnótico de braços, luzes e sons que parecia Playtime, do Jacques Tati, se Playtime fosse feito com baixo orçamento. Às 10h46, o atendente Wilton disse “pois não moça” e estendendo com ansiedade o envelope pardo informei que precisava enviar um fax para o número marcado no post-it. Wilton descolou o post-it, abriu o envelope e deu uma conferida na guia do convênio, depois enfiou a mão no bolso da frente de seu jeans, tirou de lá um celular Samsung, jogou o peso do corpo no quadril direito e começou a checar seus feeds de Facebook, compenetrado com sobrancelhas franzidas e o envelope embaixo do sovaco. Pedi “por favor estou com pressa minha vó está no hospital sozinha preciso voltar logo por favor” e ele, sem me olhar, fez que sim com a cabeça, virou de costas, caminhou calmamente até o fundo da sala e saiu por uma indiferente porta cinza. Às 10h59, Wilton retornou perguntando “é só o fax só?” e respondi que sim. Ele disse “é R$2,50” e me entregou a filipeta comprovando o envio. Abri o bolso da mochila para procurar moedas, um Trident solto estava grudado numa caneta, só consegui R$1,25 e perguntei se podia passar no débito. Ele parou e me olhou ofendido, como se eu estivesse pedindo a despoluição do rio Tietê, e questionou “você não tem R$2,50?!?”, ao que respondi “não, tenho R$ 1,25 ou débito, passo dez reais no débito se você quiser, ou volto aqui depois”. A loira interrompeu sua dança das xerox para me olhar, Fábio parou de grampear seus currículos para me olhar, Wilton informou que R$ 2,50 não tinha como passar, ninguém parecia ter R$ 1,25 para me emprestar. Sentindo as lágrimas encostando na parte de trás dos olhos e a urgência de sumir dali, disse apenas “já volto” e saí rapidamente procurando um banco. Não estava mais enxergando a rua. Não sei como tentei empurrar uma porta giratória, que travou. Não vi de onde surgiu o segurança todo de preto solicitando que objetos metálicos fossem depositados na caixa coletora. Não sabia que botões apertar diante do caixa eletrônico. Não sei por quanto tempo fiquei admirando na tela a foto de um jovem casal em cadeiras de praia sob céu azul, com uma filhinha correndo de vestido branco, um Golden Retriever caramelo e os dizeres “Transforme seus sonhos em realidade, crédito automático com limite pré-aprovado, contrate já”. Peguei meu RG, meu cartão e a fila do caixa preferencial. Um senhor carrancudo perguntou se por acaso eu estava grávida. Não entendi e respondi que não, então ele me mandou pegar a fila normal. Falei que precisava resolver um problema urgente para minha vó doente e de repente já estava diante de uma mocinha peituda com brilho labial rosinha, tentando explicar que infelizmente não, não conseguia lembrar minha senha. Via a boca dela se mexendo mas não escutava o que ela dizia. Admirei a camisa impecavelmente passada que ela usava para dentro da calça, combinando com seu cabelo escovado e as unhas francesinhas de mulher organizada que nunca esquece uma senha. Tive vontade de deitar nos peitos dela e chorar. Comecei a chutar o chão entoando o hino “odeio os bancos odeio os bancos odeio os bancos”  e finalmente ouvi sua voz, que dizia (1) “Sua conta é desta agência?” e (2) “Se você não se lembra de sua senha a culpa é sua, não dos bancos”. Respondi que (1) “Não, minha conta não é desta agência”, (2) “A culpa sempre é dos bancos” e (3) “Vá se foder”. Na rua, já estava soluçando. Pensei em minha vó, na solidão, no sistema solar, na portas giratórias que travam, nas esperanças das mocinhas do telemarketing, na beleza da loira de legging, nos carimbos, nos cientistas, nas senhas, no acaso, no tempo. Foi então que vi o Nokia, caído na esquina.

“Você tem 1 nova mensagem”, dizia a telinha. Apertei “ler”. Em 28/08/2012 às 11h57, o contato “Alexandre” havia escrito: “fica calma, estou com vc, vai dar tudo certo. Nao fica descontando seu stress nos outros. Faz aqela respiracao q a Lais ensinou lembra? Aquela q respira embaixo do umbigo. 10 vezes depois acalma. Ou entao compra um marlboro vermelho e acende 3 ao mesmo tempo. Te amo + tarde t ligo”

Imediatamente fiz a respiração que “Alexandre” recomendou. Em seguida apertei “responder” e escrevi, em 28/08/2012 às 12h01, “TAMBÉM TE AMO :)”. Segundos depois, “Mensagem enviada”, disse o Nokia. Comecei a ler as outras mensagens da Caixa de Entrada:

28/08/2012, 11h50, de “Alexandre”: “nervosa pq pequeno caos? dormiu bem? loveu”

28/08/2012, 10h32, de “Alexandre”: “acordou?”

28/08/2012, 10h12, de “Carol”: “Eeeeei e ai? Nossa que ressaca podre. Nem vi como vc foi embora? Qdo voltei do banheiro fui te procurar ce tinha sumido. Ficou com o Joao? Ta tudo bem? Me liga?”

28/08/2012, 09h28, de “Alexandre”: “Estou ligando p te acordar. Atende.”

28/08/2012, 09h05, de “Alexandre”: “bom dia……….”

28/08/2012, 04h14, de “Carol”: “kd vc? vo embora qurr carona?”

28/08/2012, 04h08, de “Joao”: “to no estacionamento”

28/08/2012, 04h06, de “Joao”: “vamo agora?”

28/08/2012, 04h02, de “Joao”: “kkkkk safada”

28/08/2012, 03h58, de “Carol”: “nossa bixa disfarça”

28/08/2012, 04h00, de “Joao”: “entao pq vc nao vem comigo?”

28/08/2012, 04h00, de “Joao”: “sei…”

28/08/2012, 03h40, de “Joao”: “quero levar vc comigo!!”

28/08/2012, 03h32, de “Joao”: “vou escrever um poema…. duas pernas, um vestido”

28/08/2012, 03h28, de “Joao”: “ta muito gata!!!!!”

28/08/2012, 03h04, de “Marilia”: “hahahaha eh isso ai meu apoiada”

28/08/2012, 03h01, de “Marilia”: “ah ta meio tarde p ir ate ai agora, to longe…”

28/08/2012, 02h58, de “Marilia”: “nossa! ta vc a Carol e a Ju? quem mais? E o Ale?”

28/08/2012, 02h34, de “Marilia”: “vc nao vem na festa da bia??????? NAO CREIO”

27/08/2012, 23h28, de “Carol”: “ta pronta? ja vo sair to ai em 20 bjssss”

27/08/2012, 23h10, de “Carol”: “te pego baby vamos juntas”

27/08/2012, 23h05, de “Carol”: “vc ve a bia todo dia. vamos no pedro vai eh ctz q o joao vai ta la se vc ficar entediada vc paquera ele”

27/08/2012, 23h00, de “Carol”: “fez bem esse seu grude com o Ale eh doente serio”

27/08/2012, 22h58, de “Alexandre”: “ok te ligo. dorme, toma bastante agua. te amo”

27/08/2012, 22h55, de “Alexandre”: “vc quer que eu te ligue p vc acordar?”

27/08/2012, 22h40, de “Alexandre”: “toma um analgesico e dorme”

27/08/2012, 22h38, de “Alexandre”: “faz tempo? tem febre? nao vai na festa da bia?”

27/08/2012, 22h36, de “Carol”: “VC VAI COMIGO NA FESTA DO PEDRO TO MANDANDO. vou me arrumar e ja te ligo. chama o Ale. bj”

27/08/2012, 22h34, de “Alexandre”: “o q vc ta sentindo? vou virar a noite provavelmente”

27/08/2012, 22h30, de “Alexandre”: “nao posso ligar agora, to no meio da montagem, o q vc tem?”

27/08/2012, 22h28, de “Alexandre”: “te quero”

27/08/2012, 20h22, de “Alexandre”: “tudo bem por ai?”

De repente o Nokia tremeu e apitou dizendo “Você tem 1 nova mensagem”. Era o “Alexandre” dizendo “:) ta melhor?”. Respondi “Nao, to pessima. Vc nao pode vir me encontrar? Urgente. Serio, acho q vou desmaiar.” Logo na sequência, o Nokia tremeu mais forte e tocou dizendo “Alexandre chamando…”

Apertei “ignorar” e escrevi outra mensagem: “Nao da pra atender, deixei no silencioso. Vim pro hospital e nao pode usar celular aqui.” Então saí correndo na direção do hospital. No meio do caminho, “Alexandre” escreveu: “que hospital??????? ta sozinha???? to indo”. Percebi que sorri sem querer. Respondi “Sao camilo. Sim to sozinha vem logo por favor amor”. Continuei correndo. Passando na frente da vitrine de uma loja parei para arrumar meu cabelo e notei que precisaria lavar o rosto e talvez trocar de camiseta. “Alexandre” respondeu “to indo”. Chegando no hospital, subi 7 andares de escada para ver minha vó. Ela estava dormindo. Deitei a cabeça na beira da cama, ao lado dela. Meu coração batia na garganta. Deixei minha mochila na cadeira do acompanhante, troquei de blusa, lavei o rosto e desci até o Pronto Socorro. Levei o Nokia e fiquei esperando e jogando Snake, pensando se saberia identificar o Alexandre, se ele seria bonito ou se ele ao menos teria R$1,25.