Os conjuntos vocais são uma das mais deliciosas e importantes tradições da música brasileira. Os dois primeiros de maior evidência foram o Bando dos Tangarás, com a incrível formação de Noel Rosa, Braguinha e Almirante entre seus bambas. O Bando da Lua, criado na década de 1930, é o mais internacional de todos até hoje, pois seguiu para os Estados Unidos como uma das imposições da nova estrela de Hollywood, Carmen Miranda (e apareceu em quase todos os filmes da cantriz). Nos anos 1940 e 50, com exemplos do tipo Os Anjos do Inferno e Os Cariocas, os grupos vocais estavam na vanguarda e lançavam os sambas de Dorival Caymmi e Assis Valente. Lúcio Alves, um dos mais modernos cantores de todas as épocas, foi crooner do Namorados da Lua. Alguns pesquisadores dizem, inclusive, que na grande colcha de influências que desaguaram na construção da bossa nova estão os arranjos ousados daqueles conjuntos. Eles têm atravessado as décadas, com maior ou menor destaque. Eram muitos nos anos 1960 (do canto orfeônico de Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, passando pelo pop do Trio Esperança, pelo regional estilizado dos Demônios da Garoa, os sambas do Quarteto em Cy, e o engajamento do MPB-4). Nos anos 1970, surgiram os grupos da vanguarda paulista, autores de suas próprias músicas, e de forte opção pelo humor, como Rumo, Premeditando o Breque e o Língua de Trapo. Nos 1980, brilharam os arranjos mais complexos do quarteto Boca Livre, do Garganta Profunda (com até 20 vozes) e do Céu da Boca (com dez). Nas últimas décadas, os grupos foram desaparecendo. Hoje, no Rio, entre os remanescentes há quatro exemplos: As Chicas, As Mulheres de Hollanda, o BR6 e o Ordinarius. Roteirizado e apresentado por Joaquim Ferreira dos Santos, este programa apresenta faixas com todos esses grupos, uma multidão de quase uma centena de vozes. A propósito, o programa começa com um desafio: o crooner do Garotos da Lua, na gravação de 1951, aparecia sete anos depois, em carreira solo, com um jeito de cantar inteiramente diferente daquele, e revolucionaria a música brasileira. Ouça o programa e decifre: quem era o crooner do Garotos da Lua?

Músicas

Amar é bom (Zaquette e Jonas Silva) – Garotos da Lua

Quando você recordar (Valter Souza e Milton Silva) – Garotos da Lua

Lataria (Noel Rosa) – Bando de Tangarás

Mamãe eu quero (Vicente Paiva e Jararaca) – Carmen Miranda e Bando da Lua

Nova ilusão (José Menezes e Luis Bittencourt) – Os Cariocas

Eu quero um samba (Janet de Almeida e Haroldo Barbosa) – Namorados da Lua

Vestido de bolero (Dorival Caymmi) – Anjos do Inferno

Nós, os carecas (Arlindo Rodrigues e Roberto Roberti) – Anjos do Inferno

Uirapuru (Jacobina e Murilo Latini) – Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano

A festa do Bolinha (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) – Trio Esperança

Samba do crioulo doido (Sérgio Porto) – Quarteto em Cy

Roda viva (Chico Buarque) – MPB4

Trem das onze (Adoniram Barbosa) – Demônios da Garoa

Quantos beijos (Noel Rosa) – Rumo

Toada (Juca Filho, Cláudio Nucci e Zé Renato) – Boca Livre

Alguém cantando (Caetano Veloso) – Garganta Profunda

Bumba no caneco (Orlando Barbosa e Getúlio Marinho) – Céu da Boca

Caras e bocas (Mu Carvalho e Dudu Falcão) – As Chicas

Baioque (Chico Buarque) – Mulheres de Hollanda

Linha de passe (João Bosco e Aldir Blanc) – BR 6

 

Roteiro e apresentação: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro