O jornalista e crítico de cinema José Geraldo Couto selecionou 15 temas marcantes da história do cinema, e, para cada um deles, escreveu um breve comentário. Verdadeiro passeio afetivo por trilhas sonoras que marcaram época, a seleção de Jose Geraldo é também a celebração de um dos casamentos mais perfeitos de todos os tempos: o do cinema com a música.

1 – Moon river, de Henry Mancini, cantado por Audrey Hepburn no filme “Bonequinha de luxo” (Breakfast at Tiffany’s), de Blake Edwards.

Uma escolha óbvia: a cena em que a avoada Holy Golightly (Audrey Hepburn) canta a canção de Henry Mancini e Johnny Mercer na escada externa de seu apartamento em Nova York é um dos momentos mais encantadores do cinema. A delicadeza da voz da atriz casa à perfeição com a doçura da melodia de Mancini, que foi gravada inúmeras vezes por outros intérpretes.

2 – Goldfinger, a canção-tema do filme homônimo de 007, cantada por Shirley Bassey.
As músicas dos filmes de 007, sobretudo as dois primeiros, compostas por John Berry, são uma das marcas registradas da série, assim como os créditos de abertura. Talvez a mais emblemática de todas seja Goldfinger, música de Berry e letra de Leslie Bricusse e Anthony Newley, na voz poderosa e sensual de Shirley Bessey.

3 – This one’s from the heart, canção de Tom Waits para o filme O fundo do coração, de Francis Ford Coppola, cantada por Waits e Crystal Gayle.
O filme de Coppola é um ensaio apaixonado sobre a força e a fragilidade das relações amorosas, e a trilha de Tom Waits dialoga à perfeição com essa equação difícil. A voz rouca de Waits contrasta com a limpidez do canto de Crystal Gayle em diversas canções memoráveis, como esta que dá título ao filme.

4 – Bye bye Brasil, canção-tema do filme homônimo de Cacá Diegues, interpretada por Chico Buarque.
A canção de Roberto Menescal (música) e Chico Buarque (letra) é a tradução musical mais que perfeita do road movie de Cacá Diegues, uma viagem de descoberta de um Brasil em vertiginosa transformação, onde “o sol nunca mais vai se pôr”. Por que “mais que perfeita”? Porque a música, a meu ver, é melhor que o filme, realizando cabalmente uma promessa que este anuncia, mas não cumpre.

5 – Wise up, canção de Aimme Mann, do filme Magnolia, de Paul Thomas Anderson.
Foram as músicas da cantora e compositora Aimee Mann que inspiraram alguns dos personagens e histórias desse filme coral de Paul Thomas Anderson. A canção “Wise up”, cantada por diversos personagens, configura quase um clipe independente no interior do filme, um momento epifânico que ressalta a profunda humanidade que os une.

6 – Tema principal de Três homens em conflito (The good, the bad and the ugly), filme de Sergio Leone, música de Ennio Morricone.
Ennio Morricone compôs trilhas para centenas de filmes, mas talvez nenhuma tenha sido tão marcante quanto a de Três homens em conflito, um dos muitos faroestes espaguete que ele musicou. O andamento épico e a orquestração extravagante (assobios, vozes, palmas, instrumentos em surdina) são adequados ao estilo entre operístico e circense dos filmes do gênero. Não por acaso, a música foi reciclada por Tarantino em seu faroeste-homenagem Django.

7 – Merry Christmas, Mr. Lawrence, tema principal do filme homônimo (no Brasil, Furyo – Em nome da honra), de Nagisa Oshima, música de Riuychi Sakamoto.
A música de Riuychi Sakamoto se tornou conhecida no Ocidente a partir deste filme, em que, além de compor a trilha, ele trabalhou como ator, contracenando com David Bowie. A própria música, em sua melodia, harmonia e orquestração, parece realizar uma ponte entre tradições do Oriente e do Ocidente, e sua força no filme é tremenda, especialmente na cena final.

8 – Gradisca si sposa, da trilha sonora de Nino Rota para Amarcord, de Federico Fellini.
De todas as trilhas que Nino Rota compôs para os filmes de Fellini, o tema recorrente de Amarcord é talvez o que mais gruda no ouvido – e na sensibilidade – do espectador. Seja executado por orquestra ou pelo solitário bandônio do músico cego, a melodia de Rota parece expressar como nenhuma outra o sentimento de nostalgia que perpassa o filme.

9 – Tema de Um corpo que cai (Vertigo), filme de Alfred Hitchcock, música de Bernard Herrmann. Assim como Fellini/Rota, a parceria Hitchcock/Hermmann produziu maravilhas em profusão. Embora o tema do assassinato no chuveiro em Psicose seja o mais famoso, o mais sublime talvez seja o de Um corpo que cai, que transmite desde os créditos de abertura do filme a atmosfera de mistério e vertigem que conduzirá o espectador até a última imagem.

10 – Dueling Banjos, da trilha sonora de Amargo pesadelo (Deliverance), de John Boorman, composição de Arthur Smith.
Apesar de conhecida mundialmente como “duelo de banjos”, a cena do filme de John Boorman mostra o diálogo empolgante entre um violão e um banjo, o primeiro tocado por um homem da cidade (Ronny Cox) e o outro por um adolescente albino do interior (Billy Redden). É o momento em que o filme acena com uma possível harmonia entre o campo e a metrópole, turvada entretanto no final, quando o garoto do banjo fecha a cara e desvia o olhar, pressagiando o drama que está por vir.

11 – Vacances, tema de Georges Delerue para o filme Jules e Jim, de François Truffaut.

Mais uma parceria matadora, a de Truffaut e Delerue. Aqui, a música envolvente de um dos grandes filmes do diretor, no qual uma fascinante Catherine (Jeanne Moreau) vira a cabeça de dois grandes amigos (Oskar Werner e Henri Serre). Mais do que sobre um triângulo amoroso, é um filme sobre a linha tênue – e às vezes tensa – entre a amizade e o amor. E a música de Delerue trafega nessa corda bamba.

12 – Also sprach Zarathustra, Abertura, de Richard Strauss, tema do filme 2001, uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick.
A única faixa desta seleção que não foi feita ou gravada especialmente para o filme correspondente. A exceção se justifica pelo fato de o poema sinfônico de Richard Strauss ter se tornado indissociável das poderosas imagens do início do filme de Kubrick, em que, no meio do confronto entre grupos de macacos, um deles descobre/inventa a arma. Para Kubrick, o homem é um animal que mata e destrói, e a música de Richard Strauss expressa como poucas essa potência maravilhosa e terrível.

13 – Come in number 51, your time Is up, do Pink Floyd, da trilha de Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni.
O tema do Pink Floyd, que já tinha sido gravado com outro nome (Careful with that axe, Eugene) num compacto do grupo, foi retrabalhado e regravado para servir de trilha à espetacular sequência final do filme de Antonioni, uma explosão imaginária que faz saltar pelos ares em câmera lenta todos os objetos e signos da cultura burguesa que os personagens combatem.

14 – Nuit sur les Champs Élysées (take 1), de Miles Davis, da trilha de Ascensor para o cadafalso, de Louis Malle.
Miles Davis compôs relativamente pouco para o cinema, embora sua música esteja presente em dezenas de filmes. A primeira trilha que ele compôs foi esta para o belo drama de Louis Malle, e seu processo de criação foi inusitado: grande parte da trilha foi composta e executada de improviso, com o músico vendo as imagens silenciosas do filme numa tela. Vem daí, certamente, a simbiose perfeita entre o ritmo das notas e o das imagens, bem como a cambiante atmosfera do filme.

15 – O tema principal de O último tango em Paris, filme de Bernardo Bertolucci, música de Gato Barbieri.
A hipnótica melodia do argentino Gato Barbieri se repete ao longo de filme como jazz, balada e tango, sempre sugerindo, em sua sinuosidade, a errância do protagonista, o fugidio objeto do desejo. Uma música que, como a busca do personagem de Marlon Brando, parece nunca ter fim.

 

Supervisão: Paulo da Costa e Silva

Edição e sonorização: Filipe Di Castro