Texto e seleção de Arthur Dapieve.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) era um homem de muitos talentos. Escreveu brilhantemente para todos os principais formatos da música clássica, das sonatas para piano às óperas. Embora declarasse serem estas produções dramáticas para os palcos a sua grande paixão, os teclados eram o seu instrumento de predileção, aqueles nos quais desde criança se apresentava, deixando boquiabertas as cortes europeias. Mozart era um exímio intérprete e se tornaria, com o crescimento, também um exímio autor.

Os primeiros quatro de seus 27 concertos para piano estão numa categoria abaixo dos outros: são graciosos arranjos para músicas compostas por outras pessoas. Mozart disse a que veio nesse gênero – já imensamente popular no período barroco – foi com o “Concerto nº 5”, composto em Salzburgo, quando tinha apenas 17 anos. A partir dali, suas obras para piano e orquestra vão ganhando crescente densidade sem jamais perder o frescor juvenil que marcou quase todas as suas obras. E quase toda a sua vida…

Entre 1985 e 1991, a pianista Mitsuko Uchida gravou a “integral” dos concertos de Mozart, com a exceção daqueles quatro escritos antes dos 17 anos, acompanhada por um conjunto leve, similar aos dos tempos do compositor, a English Chamber Orchestra, regida por Jeffrey Tate. Entre tantas versões dessas obras, é a aqui sugerida para nos fazer companhia em tempos de reclusão e reflexão. (Se mais alguém amá-las, indica-se, como suplemento, as gravações de alguns dos últimos concertos, que a própria Uchida fez posteriormente, regendo do piano a Cleveland Orchestra). Temos, com Uchida e Tate, quase dez horas de música extraordinária, com intérpretes à altura dos desafios.