Texto e seleção de Arthur Dapieve.

Perto do final da vida, Johann Sebastian Bach (1685-1750) concluiu uma obra única em sua vasta e gloriosa produção. A “Missa em si menor”, de 1749, é única em dois aspectos objetivos: primeiro, o compositor luterano escreveu uma missa completa, à moda católica, quando seus colegas no máximo juntavam duas partes, o Kyrie e o Gloria; segundo, a dimensão da obra faz com que uma apresentação completa dure em torno de duas horas. Além disso, as forças musicais envolvidas eram tamanhas que é quase certo: Bach nunca ouviu sua “Missa em si menor” ser executada integralmente.

A obra é única ainda em outro sentido, até maior, porque subjetivo: a um ano de sua morte, às vezes reutilizando material ouvido em obras anteriores, Bach fez uma espécie de testamento musical-espiritual. Independentemente de sua fé, ou da ausência de uma fé, o ouvinte sente estar diante de uma peça monumental e profunda, formada por passagens vocais e orquestrais de enorme impacto sensorial. Num guia de música clássica em CD que lançou em 1997, o falecido crítico carioca Luiz Paulo Horta, muito católico, cogitava, ao recomendar três versões diferentes da “Missa em si menor”, se essa seria não apenas a maior obra de Bach, mas a maior de toda a história da música.

A versão do maestro inglês John Eliot Gardiner – que em 2016 escreveu um livro exaltando a produção vocal-religiosa de Bach, “Music in the castle of Heaven” – não estava entre as ótimas indicações de Horta (a saber, as regidas por Harnoncourt, Richter e Herreweghe). Mas é a sugerida aqui. São quase duas horas de contemplação e êxtase interpretadas pelos conjuntos de Gardiner, o Monteverdi Choir e os English Baroque Soloists, que usam instrumentos de época, numa gravação de 1985.