Texto e seleção de João Máximo.

Ernesto Nazareth (1863-1934) é um clássico. Sua obra pianística tem uma originalidade, um apuro técnico, uma elegância formal que nos levam a dissociá-la dos rótulos dados ao que compôs – valsas, polcas, mazurcas, schottisches, choros, maxixes ou, como ele preferia, tangos brasileiros – para então a considerarmos, simplesmente, clássica. Diferentemente do sugerido por Mário de Andrade, a obra de Nazareth não funciona como “a ponte, a união, o enlace” entre a música popular e a tão pomposamente chamada “música erudita”. Ela é clássica em si mesma. Não é ponte, não estabelece hierarquias, não rompe barreiras, nem se propõe a tornar mais culto o que é popular. Clássica no melhor sentido, por seu papel na cultura musical do país, pela excelência, pela grandeza, pela perenidade.

Já o chamaram de Chopin brasileiro. Já o consideraram o maior melodista da história de nossa música. Sem ter escrito para sala de concertos, sinfonias ou peças de câmera, era reconhecido tanto por Villa-Lobos como por Pixinguinha e Tom Jobim. Por tudo isso, difícil foi compreender por que custou tanto o dia em que teríamos toda a obra de Ernesto Nazareth gravada em disco. Suas partituras aguardavam que um pianista brasileiro, virtuoso, sensível e perfeitamente identificado com sua obra se lançasse à missão de pôr ao alcance de todos o que o mestre fez – e da maneira como fez. Maria Teresa Madeira é pianista virtuosa, sensível, identificada com Nazareth e destemida o bastante para dedicar dois anos sua vida (de abril de 2014 a junho de 2016) a perpetuar, em seu estúdio, as 215 composições para piano solo, hoje divididas por 12 CDs (não se incluem as nove para piano e voz e os hinos escolares feitos por encomenda). Mas até mesmo as repetições sugeridas por Nazareth nas pautas originais são revividas por Maria Teresa Madeira em seu formidável tributo.

As gravações completas estão disponíveis em plataformas digitais.

Repertório

Brejeiro (1893)

Segredo (1896)

Feitiço (1897)

Expansiva (1903)

Coração que sente (1903)

Floreaux (1908)

Odeon (1909)

Turbilhão de beijos (1911)

Tenebroso (1913)

Confidências (1913)

Ameno Resedá (1913)

Fon-fon (1913)

Eponina (1913)

Apanhei-te cavaquinho (1914)

Ouro sobre azul (1915)

Garoto (1916)

Sarambeque (1916)

Noturno (1920)

Elegantíssima (1922)

Escorregando (1923)