Texto e seleção de João Máximo.

Foi em 1946 que o renomado produtor de discos de jazz Norman Granz inaugurou sua quarta gravadora, a Verve, não com disco de jazz, mas com uma série de songbooks onde reverenciava, na voz preciosa de Ella Fitzgerald, os maiores compositores americanos. Ao longo de oito anos, 286 canções, 17 LPs (todos já convertidos em CD) e um sofisticado esquema de produção, Granz construiu com Ella um verdadeiro monumento à música do teatro e do cinema criada na primeira metade do século XX: oito songbooks, oito homenagens a oito mestres da canção e seus parceiros.

Cole Porter foi o primeiro. As 48 faixas selecionadas por Granz representavam bem o gênio do compositor, autor das próprias letras. Apesar dos arranjos do inexperiente Buddy Bregman, o LP duplo fez sucesso no mundo inteiro e tornou Cole Porter mais conhecido.

Meses depois, o segundo álbum reunia 34 canções do compositor Richard Rodgers com seu primeiro parceiro, o letrista Lorenz Hart. Rodgers, ao lado de Porter, Irving Berlin, Jerome Kern e George Gershwin, forma o grupo que os historiadores elegem como os “five mighty” da canção tradicional americana. Os arranjos de Bregman vão funcionar melhor com Rodgers do que com Porter.

Antes de celebrar os outros três eleitos, Granz abriu parêntese para Duke Ellington. Pela primeira vez Ella trabalhava com o Duke. Em certos momentos, mais à vontade para enfeitar com seus scats a obra dele, recurso evitado em sua fidelidade às melodias dos compositores não-jazzísticos. Das 50 faixas, hoje reunidas em três CDs, nossa escolha recaiu em composições de Billy Strayhorn, braço direito, alter ego sempre oculto de Ellington.

O melhor de letra e música de Irving Berlin, Ella acompanhada pela suave orquestra de Paul Weston, está nas 32 faixas do seu álbum. Berlin viveu 101 anos, fez mais de mil canções e virou uma espécie de instituição nacional.

Em seguida, os Gershwins, George e seu irmão letrista Ira, são premiados com quatro admiráveis discos (73 faixas), todos com arranjos do inspirado Nelson Riddle. Um luxo.

Já os dois (24 faixas) de Harold Arlen, considerado por alguns o sexto gigante, não estão à altura dele. Em parte pelas lamentáveis omissões (Last night when we were young, por exemplo), em parte pelo peso dos sopros com que Billy May sobrecarregou seus arranjos. Mas vale, sobretudo, pelos clássicos e pela menos conhecida Ill wind.

O sétimo homenageado, Jerome Kern, é grande demais para caber nas 12 faixas que lhe foram dedicadas. Tido pelo parceiro Oscar Hammerstein II e pelo discípulo deste, Stephen Sondheim, como o maior de todos os melodistas americanos, ele bem que merecia tantos ou mais discos que os Gershwins, ainda mais com os arranjos de Riddle.

A série se encerra com Johnny Mercer, ótimo letrista, melodista bissexto, que também só ganhou um disco. Ele vai aqui representado por apenas um número, Dream, seu maior sucesso como autor de música e letra. O arranjo é mais uma vez de Riddle. Dezessete anos depois, o mesmo Norman Granz produziu o que seria seu nono songbook: Ella abraça Jobim. Mas este é outro capítulo, parte de outra história sobre outro gigante.

Repertório – Todas as interpretações são de Ella Fitzgerald

Ev’rytime we say goodbye (Cole Porter)

I am in love (Cole Porter)

Easy to love (Cole Porter)

I concentrate on you (Cole Porter)

Blue moon (Richard Rodgers e Lorenz Hart)

My funny Valentine (Richard Rodgers e Lorenz Hart)

I didn’t know what time it was (Richard Rodgers e Lorenz Hart)

With a song in my heart (Richard Rodgers e Lorenz Hart)

Lush life (Billy Strayhorn)

Take the ‘A’ train (Billy Strayhorn)

Satin doll (Duke Ellington, Billy Strayhorn e Johnny Mercer)

Daydream (Billy Strayhorn e Jean Latouche)

How deep is the ocean? (Irving Berlin)

Remember (Irving Berlin)

The song is ended (Irving Berlin)

Cheek to cheek (Irving Berlin)

The man I love (Irving Berlin)

But not for me (George Gershwin e Ira Gershwin)

Someone to watch over me (George Gershwin e Ira Gershwin)

Love is here to stay (George Gershwin e Ira Gershwin)

‘S wonderful (George Gershwin e Ira Gershwin)

Blues in the night (Harold Arlen e Johnny Mercer)

I’ve got the world on a string (Harold Arlen, Johnny Burke e Arthur Johnson)

Ill wind (Harold Arlen e Ted Koehler)

Stormy weather (Harold Arlen e Ted Koehler)

All the things you are (Jerome Kern e Oscar Hammerstein II)

Can’t help lovin’ dat man (Jerome Kern e Oscar Hammerstein II)

I’m old fashioned (Jerome Kern e Johnny Mercer)

The way you look tonight (Jerome Kern e Dorothy Fields)

Dream (Johnny Mercer)

 

Confira os seguintes documentários e especiais:

Ella Fitzgerald, 100 anos

Cole Porter – O homem e suas canções

Duke por Zuza

George Gershwin – O compositor americano