Texto e seleção da gravação: Bia Paes Leme.

Radamés Gnattali concluiu “Retratos” em 1958. Concebida para bandolim, orquestra de cordas e conjunto regional, a suíte (como passou a ser denominada, mas nunca pelo próprio Radamés) foi dedicada a Jacob do Bandolim, que a registrou em 1964 sob a batuta do autor.

Os quatro movimentos homenageiam quatro nomes seminais da música carioca:  Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Nesse sentido, é também um tributo à cidade que acolheu o rapaz gaúcho aos 20 e poucos anos, e na qual ele permaneceu por toda a vida.

Cada movimento é construído a partir de material rítmico e/ou melódico extraído de composições representativas dos quatro retratados, mantendo-se fiel ao gênero musical da obra de origem. Assim, o choro “Retrato de Pixinguinha” baseia-se no Carinhoso; a valsa “Retrato de Ernesto Nazareth”, na Expansiva; o schottisch  “Retrato de Anacleto de Medeiros”, em Três estrelinhas; e o maxixe “Retrato de Chiquinha Gonzaga”, no Corta-Jaca.

Vale notar que, além de compositores, os homenageados são representantes de quatro formações também seminais de nossa música instrumental: Pixinguinha tem sua história associada aos conjuntos de choro, Nazareth ao piano, Anacleto às bandas de música e Chiquinha às orquestras de salão. Como mestre da escrita e profundo conhecedor dessas linguagens, Radamés elegeu quatro figuras que, como ele, abraçaram o ofício de escrever música, eternizando no papel suas composições e arranjos.

Nos anos 1970 Radamés fez a versão de “Retratos” para bandolim e regional, gravada por Joel Nascimento e a Camerata Carioca em LP lançado em 1979. E em 1980 os irmãos Sérgio e Odair Assad encomendaram ao compositor a versão para dois violões, que foi sendo paulatinamente registrada pelo duo em três discos consecutivos: “Retrato de Chiquinha Gonzaga” e “Retrato de Ernesto Nazareth” em Lo que vendrá (1984); “Retrato de Anacleto de Medeiros” e (novamente) “Retrato de Chiquinha Gonzaga” em Sérgio and Odair Assad (1985); e finalmente, “Retrato de Pixinguinha” em Alma Brasileira (1988).

A gravação que ouviremos aqui registra um arranjo elaborado a partir da versão para dois violões. Segundo o luthier Mario Jorge Passos, amigo de Raphael presente às sessões de gravação que resultaram no LP Rafael Rabello (Visom, 1988) e no CD Radamés Gnattali – Retratos (Kuarup, 1990), o violonista havia pedido a Radamés uma versão de “Retratos” para violão solo, e este, com a assertividade que lhe era peculiar, respondeu algo que pode ser perfeitamente interpretado como “você não precisa de mim para isso” – um salvo-conduto, portanto, para Raphael produzir sua própria versão da obra.

Este arranjo para acordeon, violão e violão baixo é assinado por Raphael e Chiquinho do Acordeon, e tem o vigor de uma nova composição. A genialidade do trio de músicos certamente contribui para isso: o violão, nas mãos de Raphael, parece não ter limites, seja como melodia principal, seja nos contracantos e acompanhamentos, sempre primoroso; o acordeon resgata algo do legatto das cordas originais, mas vem com o brilho de um solista como Chiquinho, dividindo com o violão o papel principal; e o baixolão de Dininho é o chão preciso, a base necessária para que essa mágica integração aconteça.

A obra de Radamés é reconhecidamente um elo entre passado, presente e futuro, e “Retratos” é exemplar nesse sentido. Mas neste caso, em especial, três grandes intérpretes assumem com tanta paixão e competência sua tarefa, que o resultado é um dos mais sublimes discos da música brasileira.

Repertório

1º movimento – Pixinguinha (Radamés Gnattali) – Raphael Rabello, Chiquinho do Acordeon e Dininho

2º movimento – Ernesto Nazareth – Raphael Rabello, Chiquinho do Acordeon e Dininho

3º movimento – Anacleto de Medeiros – Raphael Rabello, Chiquinho do Acordeon e Dininho

4º movimento – Chiquinha Gonzaga – Raphael Rabello, Chiquinho do Acordeon e Dininho