Em 15 de novembro de 1969, há 45 anos, chegava às bancas o número 22 de O Pasquim, um semanário de humor, com uma entrevista da atriz Leila Diniz. Ela estava na capa, sorridente e com uma toalha amarrada na cabeça. Na entrevista ela dizia 71 palavrões, todos substituídos por um asterisco, o que potencializava ainda mais a carga libertária que eles traziam, em pleno AI -5, pois o leitor é quem os completava mentalmente. Dois meses depois, os militares baixavam um decreto que permitia a censura prévia aos jornais. A lei ficou conhecida como Lei Leila Diniz.

Joaquim Ferreira dos Santos, biógrafo de Leila, apresenta neste programa um trecho da gravação da entrevista, um grande momento da história da imprensa no país e também da participação da mulher na vida nacional. As entrevistas eram copidescadas, o linguajar do entrevistado era melhorado e os palavrões, reescritos. A partir das entrevistas do Pasquim buscou-se na imprensa o máximo da aproximação coloquial, principalmente na transcrição das entrevistas. A mulher brasileira também não voltaria a ser a mesma. Leila verbalizou, sem medo, a nova brasileira que estava entrando em cena: “Posso gostar de um homem e ir para cama com outro”. “Casos mil. Casadinha nunca. Na minha caminha dorme algumas noites, mais nada.”

Por causa dessa entrevista, Leila Diniz foi perseguida por todos. Os militares achavam que aquilo era um discurso contra a família. A esquerda achava que pedir liberdade para transar com quem quisesse, naquele momento, quando as prisões estavam cheias, era fugir do problema principal. As feministas achavam que Leila não ajudava a causa, era só um caso de vulgaridade explícita – e queriam distãncia.

Leila, atriz conceituada da Globo, da Excelsior e da Tupi, perdeu todos os empregos e começou a fazer apenas filmes dos amigos. Precisou abrir uma loja de bata indiana, a grande moda na virada para os anos 1970, em Ipanema. Surpreendentemente, quem lhe deu a mão foi o apresentador Flávio Cavalcanti, tido como homem de direita e cúmplice dos militares, que a abrigou em casa e lhe deu emprego no juri do programa de calouros que tinha na TV Tupi. Leila foi obrigada pelos militares a assinar um documento dizendo que não falaria mais palavrões em público.

Na entrevista, as vozes mascullinas ouvidas na gravação são as dos entrevistadores: Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel e Paulo Garcez. Por estarem brigados com Tarso de Castro, não participaram da entrevista Millôr Fernandes e Ziraldo.

 

Texto e apresentação: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro