A música popular brasileira, que teve num de seus primeiros capítulos a exaltação da malandragem, tomou gosto pelo nada fazer, e nunca foi de encarar o suor do esporte. Com a exceção do futebol, louvado nos hinos de Lamartine Babo e na produção dos Novos Baianos, por exemplo, os esportes olímpicos não inspiraram nossos compositores. Pelo contrário.

Noel Rosa debochou do culto ao físico em Tarzan, o filho do alfaiate (“de lutas não entendo abacate”), Adoniran Barbosa chamou o tiro ao alvo de Tiro ao Álvaro. Os tiros de O rei do gatilho, de Miguel Gustavo, também não são uma referência esportiva. E medalha de ouro só foi vista uma vez, num bolero de Adelino Moreira, devolvida por uma mulher abandonada ao ex-amante que a presenteou.

Joaquim Ferreira dos Santos, guiado pelo humor, saúda os jogos que começam em agosto no Rio para fazer uma lista nada olímpica das pseudoaparições de esportes na MPB. Os remadores que cruzarão a Lagoa Rodrigo de Freitas foram vistos apenas na Marcha do remador, a brincadeira de Emilinha Borba para o carnaval de 1964.

Maratona, uma palavra fácil de rimar, não inspirou nossos compositores, e ela só aparece como título de uma música do repertório de Zizi Possi, falando de uma mulher que não está disposta a uma longa série de idas e vindas amorosas com um ex-amor. Os arremessos (de dardos, de peso) passaram pela poesia dos compositores em, por exemplo, Atiraste uma pedra, de Herivelto Martins e David Nasser.

Chico Buarque, fã do futebol, ao qual dedicou uma canção citando ídolos de sua infância, teve sua lírica atravessada pelo menos duas vezes, em tom de troça, pelas atividades olímpicas. Em Partido alto, diz que Deus deu ao brasileiro pernas compridas para correr atrás de bola e fugir da polícia. Em Piruetas (“Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!”), não há ginastas com medalhas no peito. Cantada pelos Trapalhões (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias), é uma marcha de circo.

Natação, outra rima fácil, também não empolgou. Em Mambo da Cantareira, os compositores dizem que vão aprender a nadar, mas não é um projeto esportivo. Nadando, eles poderão atravessar a Baía de Guanabara mais rapidamente do que a bordo das sempre atrasadas e lentas barcas da antiga empresa Cantareira.

Se em esportes deixa a desejar, em humor a MPB é medalha de ouro.

Repertório

Tarzan, o filho do alfaiate (Noel Rosa e Vadico) – Djavan

Piruetas (L. Enriquez Bocalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque) – Chico Buarque e Os Trapalhões

Marcha do remador (Antônio Almeida e Oldemar Magalhães) – Emilinha Borba

Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles) – Elis Regina e Adoniran Barbosa

Mambo da Cantareira (Barbosa da Silva e Eloide Warthon) – Jards Macalé

Atiraste uma pedra (Herivelto Martins e David Nasser) – Nelson Gonçalves

Maratona (Beti Niemeyer) – Zizi Possi

Falso toureiro (José Gomes e Heleno Clemente) – Jackson do Pandeiro

Partido alto (Chico Buarque) – Cássia Eller

O rei do gatilho (Miguel Gustavo) – Moreira da Silva

Devolvi (Adelino Moreira) – Núbia Lafayette

 

Seleção: Joaquim Ferreira dos Santos

Edição e sonorização: Filipe Di Castro